sábado, 6 de dezembro de 2008

ONGs deixam negociação sobre Código Florestal


BRASÍLIA - Nove organizações não-governamentais ambientalistas se retiraram da negociação sobre mudanças no Código Florestal, que vinham sendo discutidas com os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente e parlamentares. O motivo da discórdia, segundo as ONGs, foi uma proposta apresentada pelo ministro da Agricultura, Reinholds Stephanes, que reduz drasticamente a proteção das áreas de conservação em nome do agronegócio.

O pacote, que teria sido acordado com a Frente Parlamentar da Agricultura e apresentado esta semana, propõe "anistia" para propriedades irregulares em áreas de preservação ocupadas até 31 de julho de 2007, a redução da área de reserva legal (percentual de floresta que deve permanecer intacto em imóveis rurais) e a possibilidade de recomposição da mata nativa com espécies exóticas, como o dendê, entre outros.

Na avaliação das organizações ambientalistas, entre elas o WWF, o Greenpeace, o Instituto Socioambiental (ISA) e a TNC, a proposta é "uma verdadeira bomba-relógio" para a biodiversidade.

"Não é possível discutir e negociar com um ministério que, em detrimento do interesse público, se preocupa apenas em buscar anistias para particulares inadimplentes. O processo de negociação deve ser vinculado à obtenção do desmatamento zero", afirmam as ONGs em manifesto.

Em nota, o Ministério da Agricultura negou que tenha pleiteado anistia para os desmatadores. "Esse tema não consta na pauta de discussão do grupo de trabalho". No comunicado, a pasta informa que "defende o desmatamento zero", mas pede mais flexibilidade nas discussões.

"A defesa ambiental exige uma posição protecionista mais rígida. Isso não pode impedir, porém, que sejam ignoradas as áreas agrícolas consolidadas, sem encontrar formas de flexibilização do uso do solo", de acordo com a nota.

O grupo de trabalho deve se reunir na próxima semana para mais uma etapa de negociação, dessa vez sem os representantes da sociedade civil. Quaisquer que sejam as mudanças sugeridas, o texto precisa passar por votação no Congresso Nacional.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Ingrid Betancourt: "Lula sempre agiu discretamente"


A franco-colombiana Ingrid Betancourt está em viagem pela América Latina. Nesta sexta-feira, em São Paulo, a ex-refém das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), declarou:

- Vim ao Brasil agradecer o presidente Lula por um só motivo: por haver me mantido em seu coração.

Ela disse que agradece ao presidente brasileiro porque falou dos seqüestrados quando isso era "politicamente incorreto", em um momento em que se acreditava "que isso estava dando publicidade às Farc". Ingrid disse ainda que o presidente Lula sempre atuou pelos seqüestrados "de uma maneira discreta".

- Esses atos de humanismo criam vínculos afetivos muito fortes (...) Agradeço a ele, mais que como amiga, como irmã.

Ingrid narrou ainda:

- Estava na selva quando escutei que Lula ofereceu o território brasileiro para uma reunião entre o governo Uribe e as Farc em momentos que não havia espaço. (...) Quero agradecer pelo passado, o presente e o futuro, por tudo o que (Lula) vai fazer.

Betancourt falou de um "ano negro" para as Farc, que se encontram "desvertebrada", e mencionou exemplos como a morte dos comandantes Raúl Reyes, Iván Ríos e Manuel Marulanda, assim como a Operação Xeque, em que foi resgatada com outros seqüestrados, e a fuga do congressista Oscar Tulio Lizcano: "Espero que dentro deste ano negro as Farc encontrem um espaço de reflexão".

Mais cedo, a ex-senadora encontrou-se com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva pela primeira vez no País desde que foi libertada.

O presidente, durante o encontro em São Paulo, defendeu a libertação de todos os reféns em poder da guerrilha. "As FARC têm uma grande chance de acreditar na democracia e no jogo da política", argumentou.

Lula mencionou que os governos de Rafael Correa (Equador) e Hugo Chavez (Venezuela), como o dele, chegaram ao poder pela via democrática. "Não se ganha eleição seqüestrando pessoas", afirmou.

Na segunda-feira, Betancourt desembarcou no Equador, onde esteve com o presidente Rafael Correa. Em seguida, voou rumo a Buenos Aires para reunir-se com Cristina Fernández de Kirchner.

Na quarta-feira, a franco-colombiana reuniu-se com a presidente chilena, Michelle Bachelet. Ontem, Betancourt já estava em Lima, onde encontrou-se com o presidente peruano Alan García.

Seis anos de cativeiro

No dia 23 de fevereiro de 2002, a então candidata presidencial da Colômbia foi seqüestrada pelas FARC, junto de sua assessora, Clara Rojas.

Betancourt esteve refém dos guerrilheiros até o dia 2 de julho deste ano, quando o Exército colombiano, através da Operação Xeque, libertou a ex-senadora e mais 14 reféns.

Terra Magazine

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Alteração de regime de chuvas afetará agricultura



Jamil Chade, GENEBRA

O desmatamento da floresta amazônica pode causar prejuízos de US$ 1 trilhão. Dados divulgados por especialistas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e por 29 instituições de pesquisa em todo o mundo alertam que as chuvas geradas no Centro-Oeste brasileiro e nos países do Cone Sul vêm em grande parte da evaporação de água da região amazônica. Um desmatamento que comprometa essa evaporação, portanto, afetaria o ciclo de águas e toda a produção agrícola dessa região.

“O Brasil precisa pensar a preservação da Amazônia como uma questão econômica que terá impacto direto em suas exportações e produção agrícola nos próximos 50 anos”, afirmou Pavan Sukhdev, chefe da divisão econômica do Pnuma e ex-executivo do Deutche Bank.

O levantamento, usando dados do cientista brasileiro Antônio Nobre - do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) -, aponta que 20 bilhões de toneladas de água evaporam todos os dias da região amazônica. Parte dessa água acaba chegando ao Cone Sul do continente. “O governo brasileiro precisa entender que preservar a floresta não é um luxo, logo será uma necessidade econômica”, disse Sukhdev. Entre 2000 e 2005, 48% da perda de cobertura florestal no mundo ocorreu no Brasil e 13% na Indonésia.

Para os especialistas, apenas o valor da Amazônia gerando as chuvas no sul e centro do continente já seria um motivo suficiente para proteger a floresta. A avaliação dos cientistas é de que a Amazônia seria a melhor “bomba d’água” e o mais eficiente projeto de irrigação do planeta.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Levantada hipótese de que Obama não pode ser presidente dos EUA


Apesar de improvável, é possível que o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, não seja um cidadão norte-americano nato, o que o tornaria inelegível para o cargo. Alguns grupos estão exigindo que Obama mostre sua certidão de nascimento original.

A especulação sobre a nacionalidade de Barack Obama se baseia na hipótese de sua certidão de nascimento ser falsa. A lei do Havaí -- onde a princípio se acredita que Obama nasceu -- prevê casos nos quais pessoas nascidas fora do estado podem mesmo assim ter uma certidão de nascimento emitida pelo departamento de saúde local, mas não sem expressar o fato de se tratar de alguém nascido em território estrangeiro.

O caso é que a certidão havaiana é bastante sujeita a adulterações. Tanto que órgãos públicos do próprio estado do Havaí não aceitam cópias autenticadas das certidões de nascimentos emitidas lá como provas conclusivas. Até aqui, Obama só mostrou cópias autenticadas. Sua certidão de nascimento original ainda não veio a público.

É comum pessoas que chegam aos Estados Unidos com crianças pequenas tentarem registrá-las como nascidas no país, para que tenham todos os benefícios da cidadania. Especula-se que Obama pode ter nascido no Quênia.

Ambientalistas em Alta



Por Mauro Kahn

O recém-eleito presidente dos EUA, Barack Obama, já ressaltou seu firme propósito de reduzir as emissões de gases que agravam o efeito estufa, tendo como meta levá-las - até 2020 - ao mesmo nível em que se encontravam no ano de 1998. O novo governo pretende investir cerca de US$ 15 bilhões por ano somente para promover a utilização de energias mais limpas.

Estas metas, ainda que conservadoras, indicam uma mudança de postura do governo americano, a seriedade e o cuidado com que o novo presidente sugere tratar a questão. Estamos otimistas e sabemos que, se Hillary Clinton for mesmo confirmada como Secretária de Estado, as questões ambientais contarão com uma defensora de grande peso.

Problemas econômicos à parte, os EUA são um exemplo para todas as grandes economias mundiais e também para os países emergentes. Uma nova postura dos EUA significa um novo modelo a ser seguido.

Desde 1998 - curiosamente o ano-referência estabelecido por Barack Obama - estamos fazendo a nossa parte. Foi exatamente neste ano, há mais de uma década, o momento de criação do MBE COPPE/UFRJ, atualmente uma das mais conceituadas pós-graduações em meio ambiente do país.

Em março de 2009 terá início à 23ª turma do MBE, e até lá já teremos quase 650 alunos formados; número que acompanha a evolução do mercado e a demanda por especialistas ambientais.

www.mbcursos.coppe.ufrj.br

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

SC/08 desastre ambiental natural! E nós ambientalistas, onde ficamos?


Enquanto o Brasil se mobiliza, pessoas a entidades, na sua maioria sociais, entes financeiros, Exército até a Marinha demonstram uma forma de ação frente ao maior desastre ambiental da natureza neste século, com as enchentes de Santa Catarina, nós, ambientalistas, onde ficamos?

Primeiro, os movimentos sociais denunciaram os equívocos de ocupação ou o efeito estufa. O poder público federal continuou na Amazônia, multando e fiscalizando.

Perdemos o bonde para demonstrar que sabemos e conhecemos de ambiência o suficiente para aplicar este conhecimento na ajuda humanitária.

Usar, por exemplo, as entidades de proteção aos animais para coletar os milhares de seres não humanos desabrigados, ou perdidos em criadouros, zoológicos e tantas outras possibilidades, na imensidão do caos de água e lama. E lógico, os animais racionais, dito humanos, com o acolhimento dessa integração.

As entidades de proteção a florestas ou águas, outro exemplo, ajudando a estabelecer critérios que diminuam já o grave impacto, mitigando as operações de corte e recolhimento, ou de como conseguir água potável, sua descontaminação, e outra gama infinita de alternativas.

Centenas de postos de gasolina ficaram embaixo d’água, e muitos vazaram, depósitos rurais com agrotóxicos, lojas com todos os tipos de químicos, fármacos! Qual o tratamento a ser dado? Quem, no meio do caos social, está podendo ter tempo de usar seu conhecimento ambiental para mitigar estes problemas?

O Ministério do Meio Ambiente possui milhares de funcionários de alta competência, carros preparados para enfrentar florestas e áreas alagadas (4x4, traçados etc), GPS, barcos, helicópteros... Onde ficou nesta tragédia ambiental? O que será que aconteceu para as autoridades ambientais não entenderem que é exatamente nestes eventos que mais são necessárias?

Lembro-me dos milhares de voluntários e de todo esforço em eventos como o vazamento de Petróleo do Rio Iguaçu na REPAR, ou outros similares pelo Brasil.

Basta este alerta: estamos esquecendo que meio ambiente se faz principalmente com solidariedade e comprovação do discurso na prática, e nossa parte tem que ser feita tanto na estratégia de luta como no campo, embaixo da chuva e no meio da lama.

P.S: Sim, estive em Santa Catarina, e nas enchentes similares, em 1983, coordenei voluntariamente a Defesa Civil no interior do Paraná por semanas, mas também me sinto omisso.

Fonte: Ambiente Brasil - Luciano Pizzatto
Luciano Pizzatto é engenheiro florestal, especialista em direito socioambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF/IBAMA 88/89, deputado desde 1989, detentor do 1º Prêmio Nacional de Ecologia.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Campanha com pessoas acima de 50 anos marca o Dia Mundial da Luta contra a Aids


Ministério da Saúde faz atividades focando o público heterossexual na faixa etária cuja incidência da doença dobrou de 1996 a 2006
Homens acima de 50 anos são o tema de campanha do Dia Mundial de Luta contra a Aids do Ministério da Saúde este ano. O governo preparou atividades em várias cidades do país para alertar a população em geral e principalmente esta faixa etária dos perigos da contaminação pelo vírus.

Com o slogan “Sexo não tem idade. Proteção também não”, o objetivo é diminuir a incidência do vírus entre os maiores de 50 anos, pois os números preocupam o ministério. Os casos passaram de 7,5 por 100 mil habitantes para 15,7 de 1996 a 2006.

Segundo a diretora do Programa Nacional de DST (doenças sexualmente transmissíveis) e Aids, Mariângela Simão, os preconceitos que cercam a vivência da sexualidade em pessoas acima dos 50 anos limitam e dificultam a abordagem sobre o HIV. “A Aids sempre foi vista como uma doença de jovens e adultos, como se a população mais velha não fosse sexualmente ativa”, afirma.

Preconceito
Outra preocupação do governo é diminuir o preconceito que os portadores da doença ainda enfrentam. De acordo com uma pesquisa feita com oito mil pessoas, de todas as regiões do país, a discriminação persiste até mesmo dentro das famílias.

Dos entrevistados, 19% acreditam que uma pessoa com Aids não deve ser tratada em casa; 22,5% disseram que não comprariam legumes ou verduras em um local onde trabalha um funcionário com HIV e 13% afirmaram que uma professora com Aids não pode dar aulas em qualquer escola. Os dados completos do levantamento serão fornecidos apenas em fevereiro.

Para discutir esta realidade, o Programa Nacional de DST e Aids preparou uma intervenção urbana que será apresentada na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Ao longo de todo o dia, um jovem ficará dentro de uma bolha transparente, impedido de tocar quem estiver no ambiente externo. O objetivo é levantar o debate sobre a exclusão vivida por quem tem o HIV ou sofre outros tipos de preconceito.

Números
Apesar da incidência de casos ter aumentado entre a população acima dos 50 anos, a maioria dos casos de Aids ainda está na faixa etária de 25 a 49 anos. Da população geral diagnosticada com Aids desde o início da epidemia até junho de 2008, foram identificados 333.485 (66%) casos em homens e 172.995 (34%) em mulheres.

Dados do Boletim Epidemiológico Aids/DST mostram que de 1980 a junho de 2008 foram registrados 506.499 casos no Brasil, sendo que nesse período ocorreram 205.409 mortes em decorrência da doença. A epidemia no país é considerada estável, sendo que a média anual de casos entre 2000 e 2006 é de 35.384.

Vênus, Júpiter e Lua, três astros mais brilhantes do céu, estarão em conjunção hoje a noite


No começo da noite de hoje (1º/12), os três astros mais brilhantes do céu noturno brindarão as regiões com tempo bom com um espetáculo.

Ao olhar na direção sudoeste a partir do entardecer, será possível observar a conjunção dos planetas Vênus e Júpiter com a Lua.

No dia 1º o trio estará tão unido que poderá ser ocultado pelo polegar com o braço estendido. Embora os três astros estejam aparentemente próximos no céu, trata-se apenas de um efeito visual, por eles estarem alinhados com a Terra.

Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar, está muito mais distante da Terra do que Vênus, e por isso parece menor.

A Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) disponibilizará telescópio, binóculos e equipe técnica para atender a quem esteja interessado em observar e adquirir mais informações sobre o evento. A sessão ocorrerá das 19h30 às 21h.

Mais informações: (12) 3945-6745


Fonte: Agência FAPESP.

Etanol. A euforia acabou


Prejuízos acumulados, falta de crédito, custos altos, ameaça de falências e de calotes – o setor mais badalado da economia brasileira é a nova vítima da crise financeira mundial

Denise Carvalho*

Os produtores brasileiros de açúcar e álcool viveram uma espécie de montanha-russa nos últimos anos. Até o fim da década de 90, o setor era visto como um fiel retrato do Brasil arcaico - aquele que não respeita leis trabalhistas e vive à custa de benesses estatais. De repente, a montanha-russa começou a subir. O etanol entrou na moda no mundo todo e o setor saiu do atraso para a vanguarda do capitalismo, em sua busca por combustíveis renováveis para substituir o poluidor e finito petróleo. Grandes grupos brasileiros se capitalizaram na bolsa de valores. Investidores internacionais desembarcaram aos montes anunciando a compra e a construção de novas usinas.

Entre eles estavam fundos especializados em tecnologia do Vale do Silício e o investidor George Soros. Os investimentos em novas unidades cresceram de 2,2 bilhões de reais na safra 2005/2006 para 7,2 bilhões de reais na safra 2008/2009. A expectativa era que esse número seguisse em sua trajetória ascendente nos anos seguintes. Mas a crise financeira mundial chegou, atingindo em cheio os produtores de álcool brasileiros - e a montanha-russa do setor inicia agora o que muitos temem ser uma vertiginosa descida.

O principal vetor do impacto da crise é a falta de crédito. Primeiro, porque o dinheiro disponível para ampliação e construção de usinas evaporou. Dos 136 projetos de novas usinas previstos para ser implantados no Brasil até 2014, cerca de 40, ou 30%, já foram postergados ou cancelados. Dos 32,6 bilhões de reais que seriam usados na construção desses novos empreendimentos, 8,2 bilhões de reais deixarão de ser investidos. Maior fabricante de equipamentos para usinas de açúcar e etanol do país, a Dedini chegou a ter 210 projetos em consulta no final de 2007. Se virassem pedidos firmes, esses projetos criariam uma fila de espera até 2015.

Hoje, apenas 50 usinas estão em análise. "Tinha muita gente embalada por um sonho", diz Sérgio Leme dos Santos, vice-presidente executivo da Dedini. "Mas a realidade não é tão cor-de-rosa assim." Além da falta de recursos para investir, há um problema mais imediato - e muito mais agudo.

Os bancos estão travando o financiamento do capital de giro das usinas, o que pode sufocá-las. Localizada em Sertãozinho, no interior de São Paulo, a tradicional usina Albertina recorreu recentemente à recuperação judicial para evitar que seus credores pedissem a falência da companhia. A Albertina tem uma dívida estimada em 100 milhões de dólares, mais de 50% com vencimento previsto para os próximos 12 meses. O grupo Naoum, de Goiás, também ingressou com um pedido de recuperação judicial para evitar a paralisação de suas três usinas - Santa Helena, Jaciara e Pantanal, que faturam mais de 300 milhões de reais por ano.

Talvez a principal conseqüência da crise financeira atual seja a demonstração de que o setor tinha pouca solidez - e de que essa fraqueza era ocultada no período de abundância de recursos. Os custos de produção, por exemplo, vêm crescendo a uma velocidade preocupante. Nos últimos 18 meses, custos básicos como mão-de-obra, frete, fertilizantes e outros insumos subiram 25%. Se a demanda de açúcar e álcool viesse crescendo a um ritmo semelhante, não haveria problema: os produtores simplesmente repassariam o aumento de custos para seus compradores.

Mas isso se provou impossível. Em razão dos altos investimentos dos últimos anos, o setor tem hoje um excesso de capacidade. Ou seja, produz mais que a demanda dos mercados local e internacional. Estima-se que, na safra 2008/2009, sejam produzidos 27 bilhões de litros de etanol no país. A demanda global não vai passar de 25 bilhões de litros. "Desde o início do ano, algumas empresas vendem etanol abaixo do custo para fazer caixa e garantir a expansão", diz André Rocha, presidente do Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool de Goiás (Sifaeg). "Com a crise, a situação das usinas ficou ainda mais frágil."

A combinação de dificuldades resulta num cenário desafiador até mesmo para os principais grupos do país. A Santelisa Vale, terceira maior empresa do setor, vive um momento crítico. Chefiada pelo empresário André Biagi, a Santelisa era um exemplo da nova fase do mercado sucroalcooleiro local. A empresa, resultado da fusão da usina Santa Elisa com a Vale do Rosário, recebeu investimento de gigantes como o banco de investimento americano Goldman Sachs e o fundo Riverstone. Em 2007, foi a melhor e mais rentável companhia do setor. Há, porém, um problema: a Santelisa carrega uma dívida pesada demais. Segundo EXAME apurou, essa dívida é estimada em 2 bilhões de reais. Boa parte se deve ao empréstimo de 1,3 bilhão de reais feito pelo BBI, braço de investimentos do Bradesco, para concretizar a fusão entre Santelisa e Vale do Rosário em fevereiro de 2007. Um débito de cerca de 300 milhões de dólares foi originado em contratos de operações cambiais.

A dívida da Santelisa equivale a um ano de seu faturamento, estimado em 1,8 bilhão de reais por ano. Em razão do custo dessa dívida, a companhia tem negociado com os fornecedores de cana-de-açúcar o pagamento de metade do que deve à vista e o restante em 30 dias. A empresa chegou a colocar 14 terrenos à venda para fazer caixa. Segundo EXAME apurou, a Santelisa ainda estuda demitir 20% dos funcionários para diminuir a folha de pagamentos em 12%. No final de 2008, estima-se que a Santelisa vá registrar um prejuízo de 800 milhões de reais. "A situação é crítica", diz um executivo familiarizado com os números da empresa.

Recentemente, a Santelisa contratou a consultoria Angra Partners, especializada em reestruturações corporativas. O objetivo da Angra Partners é renegociar as dívidas do grupo e procurar um sócio para fazer uma injeção de capital. A venda da empresa não é descartada. O problema, porém, é que o valor de mercado de companhias do setor está em suas mínimas históricas - e seria praticamente impossível pagar a dívida de 2 bilhões de reais, mesmo com a venda do negócio. Procurados, os donos da Santelisa Vale não quiseram dar entrevista. (Em nota enviada à redação, a Santelisa nega que estuda fazer demissões e informa que mantém seus projetos e continua confiante no sucesso de seus negócios.)

Apesar da crise atual, o etanol brasileiro ainda é extremamente competitivo. Nem mesmo a abrupta queda recente no preço do petróleo é capaz de torná-lo necessariamente deficitário. Estima-se que o etanol brasileiro seja competitivo mundialmente com o barril de petróleo cotado a pelo menos 40 dólares. No fim de novembro, o barril custava cerca de 50 dólares no mercado internacional. No mercado local, responsável por cerca de 85% das vendas do etanol brasileiro, a situação é menos complexa.

Como o governo tabela o preço dos combustíveis, o álcool e a gasolina mantiveram nos últimos anos uma proporção de preço que fez do etanol uma opção mais econômica para o consumidor. Hoje, o etanol responde por 51% de todo o combustível comercializado no Brasil. E mais de 90% dos veículos novos vendidos no país têm motor flex - o equivalente a 2,5 milhões de unidades por ano. Caso o governo permita a diminuição do preço da gasolina, porém, o risco para o etanol aumenta. Como o rendimento do álcool é cerca de 30% inferior, o etanol só é viável se seu preço for equivalente a, no máximo, 70% do valor da gasolina.

A indústria sucroalcooleira é altamente fragmentada no Brasil. Existem mais de 150 grupos usineiros no país, e pelo menos 90% deles são controlados por famílias. Os dez maiores grupos detêm, juntos, aproximadamente 35% do mercado. Os analistas esperam, há anos, que um processo de consolidação diminua o número de empresas - mas, como os anos eram de euforia, os preços cobrados pelos empresários sondados eram altos demais, o que diminuiu o ímpeto de grupos internacionais.

A atual mudança de cenário, porém, colocará enorme pressão em grupos menos sólidos. "Com as empresas altamente endividadas, abre-se uma brecha para a entrada de novos participantes", diz o economista Guilherme Nastari, diretor de novos projetos da consultoria Datagro, especializada em agronegócio. A oportunidade parece mais tentadora para grandes grupos estrangeiros.

Empresas como Bunge, Cargill e ADM já tinham tentado estrear ou ampliar sua participação no setor em 2007, mas desistiram por considerar os preços muito elevados. Agora, a situação mudou. Um dos primeiros movimentos das gigantes internacionais pode ser a compra do grupo Nova América, um dos maiores do setor, que fatura 1,5 bilhão de reais por ano. Bunge e Cargill estão na disputa. Com maior fôlego financeiro, empresas como essas podem se dar ao luxo de olhar para o longo prazo - e, infelizmente, é no longo prazo que as perspectivas para o etanol brasileiro são mais promissoras.